SETOR LEITEIRO ENFRENTA QUEDA NOS PREÇOS, CUSTOS ELEVADOS E PRESSÃO DAS IMPORTAÇÕES

Valor de referência projetado para setembro recua 0,90% no Rio Grande do Sul; aumento da oferta, leite importado, queda dos derivados e dificuldades provocadas pelo clima apertam margens da cadeia produtiva
O setor leiteiro atravessa um período de forte pressão sobre produtores e indústrias no Rio Grande do Sul. A combinação de maior oferta de leite nas propriedades, importações em níveis elevados, recuo nos preços dos derivados e custos de produção e logística elevados vem reduzindo as margens da atividade.
O Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do Rio Grande do Sul (Conseleite/RS) apresentou nesta terça-feira (29) a projeção do valor de referência para setembro de 2026: R$ 2,3910 por litro.
O cálculo considera os dados de comercialização registrados nos primeiros 20 dias do mês.
PREÇO PROJETADO RECUA 0,90%
A projeção representa uma redução de 0,90% em relação ao valor anteriormente projetado para agosto, de R$ 2,4128 por litro.
O movimento de baixa já havia aparecido no resultado consolidado do mês anterior. Em agosto, o valor de referência ficou em R$ 2,4189 por litro, contra R$ 2,4529 em julho, retração de aproximadamente 1,39%.
Os números reforçam um cenário no qual o produtor enfrenta simultaneamente menor referência de preço e despesas que continuam pressionando a atividade.
É importante destacar que o indicador do Conseleite não representa necessariamente o preço exato recebido por todos os produtores. Trata-se de um valor de referência calculado a partir da comercialização dos produtos lácteos pelas indústrias participantes.
MAIS LEITE NO MERCADO AUMENTA PRESSÃO
Segundo o Conseleite/RS, a redução de preço não ocorre de maneira isolada.
O coordenador da entidade, Kaliton Prestes, apontou um conjunto de fatores que afeta diferentes pontos da cadeia: crescimento da oferta de leite nas propriedades, importações elevadas e sinalização de redução dos preços dos derivados.
Quando há mais produto disponível enquanto o mercado enfrenta dificuldade para absorver essa oferta a preços mais elevados, a pressão tende a percorrer toda a cadeia indústria, distribuição e produtor.
IMPORTAÇÕES ENTRAM NA EQUAÇÃO
Outro ponto de preocupação para o setor é a presença do leite e de derivados importados no mercado brasileiro.
Representantes da produção nacional vêm apontando há meses os impactos da concorrência externa sobre a formação dos preços internos, especialmente quando produtos estrangeiros chegam ao país em condições consideradas mais competitivas pela cadeia produtiva brasileira.
Esse debate envolve, além dos produtores, indústria, entidades representativas e o governo federal, principalmente em relação à política comercial para produtos lácteos.
TEMPORAIS AGRAVAM PROBLEMAS NO CAMPO
No Rio Grande do Sul, o cenário econômico ainda se soma aos efeitos das condições climáticas.
Temporais recentes provocaram danos em lavouras e na infraestrutura rural, além de criarem dificuldades para o acesso às propriedades e para o transporte do leite.
No setor leiteiro, logística é particularmente sensível porque se trata de um produto perecível e que precisa seguir uma rotina rígida de armazenamento e coleta.
Estradas comprometidas ou propriedades temporariamente isoladas podem, portanto, provocar perdas e aumentar custos.
DIESEL E TRANSPORTE TAMBÉM PRESSIONAM A CONTA
Durante as discussões do Conseleite também foram apontadas questões relacionadas à disponibilidade e ao custo do diesel.
O combustível tem impacto direto sobre a coleta nas propriedades, transporte até as unidades industriais e posteriormente sobre a distribuição.
Para o produtor, a situação cria uma combinação especialmente delicada: pressão de baixa sobre a receita enquanto diferentes componentes dos custos permanecem elevados.
CONSELEITE QUER FLEXIBILIZAÇÃO DA REGRA DAS 48 HORAS
As dificuldades provocadas pelos temporais levaram o Conseleite/RS a discutir uma medida emergencial.
A entidade pretende solicitar ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) uma flexibilização temporária da regra que estabelece o prazo máximo de 48 horas para a coleta do leite nas propriedades rurais.
A preocupação está principalmente nas áreas onde estradas ou acessos foram prejudicados pelas condições climáticas.
A proposta busca evitar que empresas sejam penalizadas quando o atraso na coleta estiver relacionado a situações excepcionais de acesso às propriedades.
DESAFIO VAI ALÉM DO PREÇO DO LITRO
O cenário apresentado pelo setor mostra que a discussão não se resume à queda de alguns centavos no valor de referência.
Para o produtor permanecer na atividade, é a relação entre receita e custo de produção que determina a sustentabilidade econômica da propriedade.
Alimentação do rebanho, energia elétrica, combustível, medicamentos, mão de obra, manutenção de equipamentos e transporte compõem uma atividade que exige produção diária e estrutura permanente.
Por isso, a sequência dos preços nos próximos meses será acompanhada de perto pelo setor, especialmente diante do comportamento da oferta nacional, das importações e dos custos de produção.
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Fonte: Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do Rio Grande do Sul (Conseleite/RS) e Universidade de Passo Fundo (UPF).
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