Geriatra lança livro em Natal sobre saúde e propósito na longevidade
Ainda existe uma visão comum de que envelhecer é sinônimo de doença, limitações e perda de autonomia. Ao mesmo tempo, sabe-se que a expectativa de vida aumentou no Brasil – é, em média, de 76 anos, segundo o IBGE. É preciso encontrar a harmonia nesse processo. A médica geriatra, escritora e palestrante Ângela Costa acredita que o envelhecimento pode ser encarado como uma fase da vida a ser construída com saúde, propósito e significado. Seu estudo rendeu o livro “Café para envelheSER”, que será lançado no dia 16/09, no evento Expo Longevidade, em Natal.
Envelhecer é continuar “sendo”, segundo a geriatra. “É reconhecer que o corpo muda, que os ciclos se encerram e que algumas perdas fazem parte da caminhada, mas compreender que a nossa identidade não desaparece com o passar dos anos. Continuamos sendo pessoas com desejos, opiniões, afetos, projetos e capacidade de aprender”, explica sobre o título de seu livro, resultado de 15 anos de atuação como geriatra.
A médica afirma que a visão negativa sobre envelhecimento não corresponde à realidade de todas as pessoas – e ainda é capaz de produzir o abandono tão temido. “Quando tratamos a velhice como uma fase de perdas inevitáveis, deixamos de investir em prevenção, reabilitação, participação social e novos projetos. Envelhecer aumenta o risco de algumas doenças, mas velhice não é doença”, diz. A longevidade não deve ser apenas acrescentar tempo à vida, mas acrescentar vida, dignidade e significado ao tempo.
É possível começar a construir um envelhecimento saudável a partir de qualquer idade. “Nosso organismo responde positivamente às mudanças em qualquer idade. Nunca é cedo demais para prevenir e quase nunca é tarde demais para cuidar”, diz. Dos 40 aos 60 anos, pode-se começar pelo “básico bem feito”: movimentar o corpo, preservar a força muscular, melhorar a alimentação, cuidar do sono, atualizar as vacinas, controlar doenças crônicas, revisar medicamentos, cultivar vínculos e manter o cérebro ativo.
Os hábitos que mais fazem diferença não são os mais caros nem os mais chamativos, afirma a geriatra. “São os que conseguimos sustentar ao longo da vida: atividade física regular, especialmente exercícios de força; alimentação equilibrada; sono adequado; vacinação; controle da pressão, da glicemia e do colesterol; não fumar; evitar o consumo excessivo de álcool; manter vínculos sociais e cuidar da saúde mental”, diz.
A médica alerta sobre a vertente da indústria que está “vendendo” longevidade, em cápsulas, soros, hormônios, exames indiscriminados e promessas de rejuvenescimento rápido. Segundo ela, muitas dessas estratégias têm pouca sustentação científica, podem gerar gastos desnecessários e, em alguns casos, trazer riscos.
“Não existe suplemento capaz de compensar noites mal dormidas, sedentarismo, tabagismo, solidão e doenças mal controladas. A ciência da longevidade pode ser sofisticada, mas seus pilares continuam sendo surpreendentemente simples. O desafio não é descobrir uma fórmula secreta; é transformar conhecimento em constância”, analisa.
Fatores como sono, saúde mental, vínculos sociais e propósito de vida são fundamentais no processo de envelhecer bem. Ângela explica que o sono participa da consolidação da memória, do equilíbrio emocional, da imunidade e da saúde cardiovascular. A saúde mental interfere diretamente na disposição para se cuidar. Os vínculos sociais protegem contra isolamento, depressão e declínio funcional. E o propósito oferece uma razão para levantar da cama e continuar participando da vida.
A perda de autonomia é um dos maiores medos relacionados à velhice. É preciso cuidar da funcionalidade antes que ela seja perdida. A médica alerta que isso significa preservar força, equilíbrio, mobilidade, cognição, visão, audição e capacidade de realizar as atividades do cotidiano. “A musculação tem um papel extraordinário nesse processo, porque músculo é uma verdadeira reserva de independência. Também é importante prevenir quedas, revisar medicamentos, adaptar o ambiente doméstico e identificar precocemente alterações de memória, humor, marcha ou alimentação”, lista.
Mas preservar a autonomia também significa respeitar o direito de a pessoa idosa fazer escolhas. “Muitas vezes, por medo, a família passa a decidir tudo por ela e retira capacidades que ainda estavam preservadas. Cuidar não é substituir a pessoa em tudo. É oferecer apoio para que ela continue fazendo, escolhendo e participando pelo maior tempo possível”, afirma.
Não existe uma idade rígida para solicitar o acompanhamento de um geriatra, segundo Ângela. “A geriatria não deve ser procurada apenas quando aparecem demência, quedas, fragilidade ou dependência. Ela também trabalha com prevenção e planejamento do envelhecimento”, diz. Ela afirma que uma pessoa de 50 anos já poderia procurar um profissional para avaliar riscos, hábitos, composição corporal, cognição, vacinação e uso de medicamentos, além de construir um plano de cuidado para as próximas décadas.
Etarismo
Em uma sociedade que supervaloriza a juventude, é preciso primeiro enfrentar o etarismo dentro de si mesmo. “Ele aparece quando dizemos que alguém está ‘bem, apesar da idade’, quando tratamos pessoas idosas como crianças, quando ignoramos suas opiniões ou quando associamos beleza, produtividade e desejo exclusivamente à juventude”, diz. Combater esse preconceito, segundo ela, exige convivência entre gerações e novas referências de envelhecimento.
“Precisamos mostrar pessoas mais velhas ocupando espaços, aprendendo, trabalhando, amando, criando, mudando de ideia e começando novos projetos”, afirma. Quando se despreza a velhice, discrimina-se o próprio futuro. “A juventude não é o contrário da velhice; é parte do caminho até ela. Envelhecer é um privilégio que precisa ser acompanhado de direitos, respeito e oportunidades”, alerta.
O livro
“Café para envelheSER” é resultado de mais de 15 anos de atuação de Ângela Costa em geriatria. “Essas experiências me ensinaram que os exames contam uma parte da história, mas não contam tudo. A pergunta não pode ser apenas ‘O que essa pessoa tem?’. Precisamos perguntar: ‘Quem ela é? O que importa para ela? O que ainda deseja viver?’. Talvez essa seja uma das perguntas mais geriátricas que existem”, afirma. A obra foi construída para dialogar com pessoas de diferentes idades e provocar uma reflexão sobre a própria trajetória – “E não é um livro médico”, enfatiza.
Além da atuação médica, Ângela é criadora do projeto Café com a Geriatra, por meio do qual leva informações sobre saúde, envelhecimento, prevenção, autonomia e qualidade de vida para diferentes plataformas. “Já acompanhei pessoas com diagnósticos importantes, mas cercadas de afeto, propósito e vontade de viver, que continuavam fazendo planos e encontrando alegria nas pequenas coisas. Também vi pessoas com poucos problemas clínicos, mas profundamente adoecidas pela solidão e pela sensação de não serem mais necessárias”, conta.
Segundo ela, uma história emblemática em sua trajetória com a geriatria foi a de José Bezerra, um maratonista de 90 anos que começou a se cuidar após a aposentadoria. “Tenho várias experiências de pacientes que eram resistentes à atividade física e, após o início e a constância na prática, melhoraram a disposição e a mobilidade e não querem mais abandonar esse hábito”.
A intenção do livro, segundo a autora, é fazer o leitor compreender que preparar-se para envelhecer não significa viver com medo do futuro. Significa assumir protagonismo sobre aquilo que ainda pode ser construído. “Meu desejo é que este livro faça as pessoas conversarem. Não existe idade certa para começar a cuidar da própria longevidade. Existe o hoje”, conclui.