Recusa familiar ainda impede 45% das doações de órgãos no Brasil
A decisão de autorizar a doação de órgãos acontece em um dos momentos mais difíceis para uma família: depois da confirmação da morte encefálica de um parente. No Brasil, cerca de 45% das famílias entrevistadas recusam a retirada dos órgãos, mesmo quando o paciente poderia se tornar um doador e ajudar pessoas que aguardam por um transplante.
Os dados de 2025 mostram que o país teve 15.940 potenciais doadores, mas, desse total, apenas 4.335 se tornaram doadores efetivos. Entre as famílias consultadas, 4.200 não autorizaram a doação.
Para a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), a decisão não está ligada apenas à vontade ou ao conhecimento da população sobre transplantes. A forma como os familiares são acolhidos e recebem as informações dentro dos hospitais também interfere no processo.
O presidente da entidade, Cristiano Franke, afirma que alguns pacientes chegam a comunicar em vida aos familiares o desejo de doar órgãos. Mesmo assim, a autorização pode não ocorrer quando a família não recebe as informações necessárias ou quando a abordagem da equipe de saúde não é adequada ao momento. “Muitas vezes as famílias não recebem todas as informações adequadamente, no momento e com um protocolo adequados para tomarem a melhor decisão”, disse Franke.
Segundo ele, profissionais também podem enfrentar dificuldades para conduzir conversas sobre morte encefálica e doação de órgãos. O uso de termos excessivamente técnicos, abordagens consideradas frias e conversas realizadas em ambientes inadequados estão entre os problemas apontados.
Capacitação de profissionais
Para qualificar esse atendimento, a AMIB, em parceria com o Ministério da Saúde, capacitou 2.534 profissionais entre setembro de 2025 e agosto de 2026. O número representa 25% a mais que a meta inicial, estabelecida em 2 mil participantes.
A formação aborda diferentes etapas do processo de doação. Os profissionais recebem orientações sobre a identificação de potenciais doadores, o diagnóstico de morte encefálica, a manutenção clínica do paciente e a comunicação com os familiares.
Entre os profissionais capacitados estão 933 médicos. Desses, 473 receberam treinamento específico para a determinação da morte encefálica. Também participaram enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, administradores, farmacêuticos, odontólogos, biólogos, além de um nutricionista e um pedagogo.
Até agosto, foram realizados 73 cursos, divididos em 23 módulos, com atividades em 25 estados. Outros oito treinamentos ainda estão previstos para o encerramento do projeto. Neste mês, estão programadas capacitações em Fortaleza (CE) e Florianópolis (SC).
Motivos para a recusa
A compreensão ou a aceitação da morte encefálica está entre os fatores que podem levar uma família a não autorizar a doação. Também aparecem questões religiosas, o receio de que o corpo seja alterado, dúvidas sobre a segurança e a transparência do processo e o desconhecimento sobre a vontade manifestada pelo paciente enquanto estava vivo.
A percepção sobre a atuação da equipe médica também pode influenciar a decisão. Quando os familiares entendem que os profissionais estão mais preocupados com a retirada dos órgãos do que com o paciente, a resistência pode aumentar.
Outro ponto citado pela AMIB é o medo de que a retirada dos órgãos provoque alterações visíveis no corpo durante o velório. A orientação dada às famílias inclui informações sobre o procedimento e a reconstituição do corpo após a retirada.
“As famílias têm receio de deformação do corpo e nós explicamos adequadamente como é feito o procedimento e a reconstituição do corpo, que não deixarão deformidades visíveis nos ritos funerais como o velório”, explicou Franke.
A capacitação das equipes busca, portanto, atuar antes da decisão final da família. A proposta envolve desde a identificação do potencial doador até a conversa com os parentes, com informações claras sobre o diagnóstico, os procedimentos médicos e as etapas da doação.
Transplantes em 2025
Os números do Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), mostram que o país registrou 20,3 doadores efetivos por milhão de habitantes em 2025. Em 2024, eram 19,2 por milhão.
Apesar do aumento, a diferença entre potenciais doadores e doadores efetivos permanece significativa. Dos 15.940 potenciais doadores registrados no ano passado, apenas 4.335 efetivamente tiveram os órgãos destinados à doação.
A autorização familiar continua sendo uma das etapas decisivas para transformar um potencial doador em doador efetivo. Por isso, além dos critérios médicos para confirmar a morte encefálica e manter o funcionamento dos órgãos, a comunicação com os familiares passou a ser tratada como parte fundamental do processo.