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Produtos biológicos de baixa qualidade ameaçam mercado de R$ 5,3 bilhões e preocupam produtores rurais

AUGE01
13 de Outubro de 2026 às 18:32
7 min de leitura
Produtos biológicos de baixa qualidade ameaçam mercado de R$ 5,3 bilhões e preocupam produtores rurais

Setor de biodefensivos cresce no Brasil e supera 107 milhões de hectares em área tratada acumulada, mas falhas na qualidade, produtos irregulares e indefinições regulatórias podem comprometer a produtividade e a confiança dos agricultores.

O mercado brasileiro de produtos biológicos utilizados na agricultura alcançou R$ 5,3 bilhões em vendas de biodefensivos na safra 2025/2026, consolidando-se como um dos segmentos de destaque na modernização do agronegócio nacional.

Os dados, apresentados pela consultoria Kynetec Brasil e divulgados pela CropLife Brasil, apontam que os biodefensivos já representam aproximadamente 6% do mercado de defensivos e inoculantes nos principais cultivos brasileiros, com mais de 107 milhões de hectares em área tratada acumulada.

Entretanto, o avanço dessa tecnologia também traz desafios importantes. A comercialização de produtos de qualidade inadequada, com baixa concentração de agentes ativos, contaminação ou desempenho incompatível com as especificações técnicas pode comprometer resultados no campo e prejudicar a credibilidade de todo o setor.

O principal risco não está na tecnologia biológica, mas na possibilidade de o agricultor adquirir um produto que não entrega a qualidade e a eficiência prometidas.

O QUE SÃO OS PRODUTOS BIOLÓGICOS UTILIZADOS NA AGRICULTURA?

Os bioinsumos são produtos, processos ou tecnologias de origem biológica utilizados para melhorar o desenvolvimento das plantas, favorecer a nutrição e auxiliar no controle de pragas e doenças.

Entre as principais categorias estão:

  • Bioinseticidas: utilizados no controle de determinadas pragas agrícolas.
  • Biofungicidas: empregados na prevenção ou no controle de doenças causadas por fungos.
  • Bionematicidas: destinados ao manejo de nematoides que prejudicam as raízes.
  • Inoculantes: produtos que contêm microrganismos benéficos, capazes de contribuir para processos como a fixação biológica de nitrogênio.
  • Bioestimulantes: produtos que podem favorecer processos fisiológicos e o desenvolvimento vegetal, conforme sua composição e finalidade.

Essas tecnologias são utilizadas em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, café e hortaliças.

O desempenho, entretanto, depende de fatores como formulação, qualidade microbiológica, armazenamento, condições ambientais e aplicação correta.

COMO UM PRODUTO BIOLÓGICO DE BAIXA QUALIDADE PODE PREJUDICAR A LAVOURA?

Diferentemente de muitos defensivos químicos convencionais, diversos produtos biológicos dependem da presença de microrganismos viáveis ou de componentes biologicamente ativos para exercer sua função.

Quando a fabricação, o transporte ou o armazenamento não seguem os padrões exigidos, a qualidade pode ser comprometida.

Entre os principais problemas técnicos estão:

1. Baixa concentração de microrganismos viáveis

Um produto pode apresentar quantidade de organismos ativos inferior à especificada, comprometendo seu desempenho agronômico.

2. Contaminação microbiológica

Falhas no processo de fabricação podem permitir a presença de microrganismos indesejados, afetando a qualidade e, dependendo do contaminante, a segurança do produto.

3. Armazenamento inadequado

Temperaturas fora das condições recomendadas, exposição ao sol e conservação incorreta podem reduzir a viabilidade de determinadas formulações.

4. Produtos sem comprovação adequada de eficácia

A ausência de evidências técnicas consistentes para a finalidade anunciada pode levar o agricultor a utilizar soluções que não apresentam o resultado esperado.

5. Erros de aplicação e incompatibilidades

Misturas inadequadas, doses incorretas ou aplicações em condições desfavoráveis podem reduzir a eficiência até mesmo de produtos regularmente fabricados.

A consequência pode ser o aumento dos custos de produção, a necessidade de novas intervenções e, em determinadas situações, perdas de produtividade.

MERCADO CRESCE, MAS PREÇOS ESTÃO SOB PRESSÃO

O avanço do setor continua em 2026.

Segundo projeção divulgada pela Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII Bio), o mercado deve encerrar o ano com crescimento entre 5% e 7% em valor de vendas e aproximadamente 10% em volume.

No primeiro semestre, a expansão em volume foi de 7%, enquanto o faturamento apresentou estabilidade, segundo a entidade.

A diferença indica um ambiente de pressão sobre preços e margens comerciais.

Nesse cenário, a competição por preços exige atenção redobrada à qualidade, pois produtos de menor custo não são necessariamente inferiores, assim como preços elevados não garantem eficácia.

A comparação deve considerar registro, especificações técnicas, desempenho comprovado, procedência e condições de armazenamento.

NOVA LEI DOS BIOINSUMOS BUSCA AMPLIAR A SEGURANÇA DO MERCADO

A Lei Federal nº 15.070, sancionada em dezembro de 2024, estabeleceu um marco regulatório específico para os bioinsumos no Brasil.

A legislação trata de produção, registro, comercialização, importação, exportação, fiscalização, rotulagem, armazenamento e utilização dessas tecnologias.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) é responsável pelo registro de estabelecimentos e produtos comerciais, além da fiscalização da produção comercial e das operações de importação e exportação.

Aos órgãos estaduais e distritais de agricultura competem atividades de fiscalização relacionadas ao comércio, transporte e uso, além da produção para uso próprio, conforme a legislação.

Entretanto, representantes da indústria apontam que a implementação integral do marco regulatório ainda depende de regras complementares.

A regulamentação é considerada importante para estabelecer procedimentos operacionais claros, ampliar a previsibilidade jurídica e fortalecer a fiscalização.

PRODUÇÃO DE BIOINSUMOS NA PRÓPRIA FAZENDA TAMBÉM EXIGE CONTROLE

A legislação brasileira reconhece a produção de bioinsumos para uso próprio, observadas as exigências legais e regulamentares aplicáveis.

Essa possibilidade pode oferecer alternativas ao agricultor, mas não elimina a necessidade de cuidados técnicos.

A produção de microrganismos sem condições adequadas de higiene, identificação, controle de contaminação e acompanhamento especializado pode resultar em materiais de composição desconhecida ou desempenho inconsistente.

É importante distinguir a produção para uso próprio, permitida dentro das condições legais, da fabricação comercial irregular.

A origem do produto, isoladamente, não determina sua qualidade. O que importa é o cumprimento dos requisitos técnicos e sanitários aplicáveis a cada modalidade.

COMO O PRODUTOR PODE SE PROTEGER?

Antes de adquirir ou utilizar um bioinsumo comercial, o agricultor deve verificar a regularidade do produto e do fornecedor.

Também é recomendável observar o prazo de validade, a identificação do lote, as condições de conservação e as instruções de aplicação.

Produtos que dependem de microrganismos vivos merecem atenção especial às condições de temperatura e armazenamento indicadas pelo fabricante.

O acompanhamento de um engenheiro agrônomo ou profissional habilitado também contribui para selecionar a tecnologia adequada à cultura, à praga ou à finalidade pretendida.

Caso sejam identificadas suspeitas de irregularidade, o produtor pode preservar embalagens, notas fiscais e informações dos lotes para subsidiar reclamações e eventual fiscalização.

PRODUTOS INEFICIENTES PODEM COMPROMETER A CONFIANÇA EM TODA A TECNOLOGIA

Uma das preocupações do setor é que experiências negativas com produtos de qualidade inadequada levem agricultores a desacreditar das soluções biológicas de maneira generalizada.

Entretanto, é necessário distinguir falhas de fabricação, problemas de conservação e erros de aplicação das limitações naturais de cada tecnologia.

Um resultado insatisfatório em campo não comprova automaticamente que o produto seja irregular.

A investigação técnica precisa considerar as condições de uso, a pressão de pragas, o manejo adotado e as características da formulação.

Da mesma forma, o crescimento das vendas não comprova, isoladamente, que todos os produtos disponíveis apresentem qualidade satisfatória.

O DESAFIO É CRESCER COM QUALIDADE E FISCALIZAÇÃO

O Brasil possui condições para ampliar o desenvolvimento e a utilização de soluções biológicas na agricultura, especialmente diante da necessidade de diversificar estratégias de manejo e aumentar a eficiência produtiva.

Mas o crescimento sustentável desse mercado depende de pesquisa científica, investimento industrial, assistência técnica, controle de qualidade e fiscalização efetiva.

A regulamentação da Lei dos Bioinsumos representa uma etapa importante desse processo.

Para o produtor rural, o desafio é garantir que os investimentos realizados nessas tecnologias resultem em benefícios concretos para a lavoura.

Um mercado de R$ 5,3 bilhões não pode depender apenas da promessa de eficiência. Precisa oferecer produtos confiáveis, rastreáveis e com qualidade compatível com aquilo que é anunciado ao agricultor.

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Fonte: CropLife Brasil; Kynetec Brasil; Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPII Bio); Ministério da Agricultura e Pecuária; Lei Federal nº 15.070/2024; Canal Rural; Agrolink.

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