Brasil produz mais leite com menos vacas, mas Mato Grosso enfrenta retração na atividade

Avanços na produtividade permitem ampliar a produção nacional com um rebanho menor, enquanto custos de alimentação, margens apertadas e dificuldades de investimento pressionam os produtores de leite.
A pecuária leiteira brasileira passa por uma transformação importante: o país consegue aumentar a produção de leite mesmo com um número menor de vacas ordenhadas. O resultado reflete avanços na produtividade, melhorias genéticas, alimentação e tecnologias de manejo.
Entretanto, essa evolução não ocorre de maneira uniforme em todo o território nacional. Enquanto algumas regiões ampliam sua capacidade produtiva, Mato Grosso enfrenta dificuldades para acompanhar o crescimento, em um cenário de custos elevados e desafios para a rentabilidade dos produtores.
A situação revela duas realidades do mesmo setor: de um lado, propriedades mais tecnificadas conseguem produzir volumes maiores com menos animais; de outro, produtores com menor capacidade de investimento enfrentam dificuldades para permanecer competitivos.
MAIS PRODUTIVIDADE COM MENOS ANIMAIS
O crescimento da produtividade é um dos principais indicadores da modernização da pecuária leiteira.
Com melhoramento genético, alimentação balanceada, controle sanitário e técnicas mais eficientes de reprodução e ordenha, uma vaca pode produzir atualmente mais leite do que animais criados em sistemas menos tecnificados.
Isso permite que determinadas propriedades ampliem sua produção sem aumentar proporcionalmente o tamanho do rebanho.
A transformação também envolve mudanças no perfil das fazendas. Sistemas de produção mais especializados tendem a apresentar produtividade superior, enquanto propriedades menos estruturadas enfrentam maiores dificuldades para acompanhar a evolução tecnológica.
Entretanto, produzir mais leite por animal não significa necessariamente obter maior lucro. A rentabilidade depende da relação entre o preço recebido pelo produtor e os custos necessários para manter a atividade.
ALIMENTAÇÃO É UM DOS PRINCIPAIS CUSTOS DA PRODUÇÃO
Entre as despesas mais relevantes da pecuária leiteira está a alimentação dos animais.
Milho, farelo de soja, suplementos minerais, silagem e outros componentes utilizados nas dietas representam uma parcela importante dos custos de produção, especialmente em propriedades que dependem de suplementação intensiva.
Quando esses insumos ficam mais caros, a margem financeira do produtor pode diminuir.
A pressão é ainda maior quando o preço recebido pelo litro de leite não acompanha o aumento das despesas.
Além da alimentação, o produtor precisa arcar com energia elétrica, medicamentos veterinários, manutenção de equipamentos, mão de obra e transporte.
Diante desse cenário, elevar a produtividade é importante, mas não elimina a necessidade de controlar custos e garantir remuneração suficiente para manter a atividade.
MATO GROSSO ENFRENTA DESAFIOS PARA AMPLIAR A PRODUÇÃO
Apesar de sua forte participação no agronegócio brasileiro, Mato Grosso enfrenta dificuldades específicas no desenvolvimento da pecuária leiteira.
O estado possui uma estrutura agropecuária fortemente vinculada à produção de grãos e à pecuária de corte, atividades que disputam recursos, investimentos e áreas produtivas com a atividade leiteira.
A produção de leite, por sua vez, exige manejo diário, investimentos constantes e uma estrutura de comercialização capaz de garantir o escoamento de um produto perecível.
Para pequenos e médios produtores, a distância até os laticínios, os custos logísticos e a necessidade de modernização podem representar obstáculos adicionais.
Nesse contexto, a retração da atividade leiteira merece atenção não apenas pelo volume produzido, mas também por seus possíveis reflexos sobre a renda das famílias rurais e a economia dos municípios.
CAPTAÇÃO DE LEITE EM MATO GROSSO CAIU 14,82%
Dados do Imea, com base na Pesquisa Trimestral do Leite do IBGE, mostram que Mato Grosso registrou queda de 14,82% na captação de leite no primeiro trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025.
O volume captado pelas indústrias do estado ficou em 86,74 milhões de litros, o menor resultado para um primeiro trimestre desde 2006.
Segundo o instituto, o desempenho está relacionado à saída de um grande laticínio da região oeste e à redução do número de produtores em atividade, pressionados pelos elevados custos de produção.
No mesmo período, o Brasil alcançou 6,78 bilhões de litros de leite captados, recorde para um primeiro trimestre.
O contraste demonstra que a expansão nacional não significa crescimento em todas as regiões produtoras.
CUSTO DE PRODUÇÃO SUPERA PREÇO RECEBIDO PELO PRODUTOR
Outro levantamento do Imea, realizado em parceria com o Senar Mato Grosso, mostra as dificuldades financeiras enfrentadas pelo setor.
No segundo trimestre de 2026, o custo operacional total da produção leiteira no estado chegou a R$ 2,28 por litro, enquanto o preço médio recebido pelo produtor foi de R$ 2,19.
Isso representa uma diferença negativa de aproximadamente R$ 0,09 por litro quando considerados os componentes do custo operacional total.
Já o custo operacional efetivo ficou em R$ 1,47 por litro, indicando que a atividade ainda conseguia cobrir determinadas despesas desembolsáveis, mas enfrentava dificuldades para remunerar integralmente os custos considerados no levantamento.
Esse cenário pode comprometer a capacidade de investimento e a permanência de produtores na atividade.
BRASIL BATE RECORDE COM 36,7 BILHÕES DE LITROS
Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal de 2025, divulgada pelo IBGE em setembro de 2026, o Brasil produziu 36,7 bilhões de litros de leite, crescimento de 2,7% em relação a 2024.
Ao mesmo tempo, o número de vacas ordenhadas diminuiu 2,7%, chegando a 14,7 milhões de animais.
A produtividade média nacional alcançou 2.498,7 litros por vaca ao ano, aumento de 5,6%.
O IBGE atribui esse avanço a fatores como condições climáticas favoráveis, melhoramento genético e reorganização da atividade, incluindo a saída de produtores menos especializados.
Os resultados evidenciam um setor que se torna mais produtivo, mas também exige investimentos cada vez maiores para acompanhar a modernização.
MODERNIZAÇÃO É DESAFIO PARA PEQUENOS PRODUTORES
A pecuária leiteira tem importância econômica e social para diversas regiões brasileiras, especialmente pela participação de propriedades familiares.
A necessidade de investir em genética, alimentação, equipamentos e gestão pode ampliar a distância entre produtores mais capitalizados e aqueles com recursos limitados.
Em Mato Grosso, a combinação de custos elevados, redução da captação e saída de produtores representa um desafio para a manutenção da atividade.
O Brasil demonstra que é possível produzir mais leite com menos vacas. O desafio agora é garantir que os ganhos de produtividade também se traduzam em melhores condições econômicas para quem produz, evitando que a modernização seja acompanhada pela saída crescente de pequenos produtores do mercado.
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Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea); Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT); Agência Brasil.
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